Segundo Freitas (1999), a sala de aula, sob uma visão bakhtiniana, é uma arena onde podemos visualizar a função social da linguagem em plena atividade, pois nesse local emergem discussões, opiniões, conflitos, possibilitados pelo diálogo. Vislumbra-se, portanto, neste espaço, o processo ensino-aprendizagem constituindo sujeitos socialmente localizados. Entretanto, essa constituição só será possível por meio da linguagem. Destaca-se a importância desse espaço como local de construção da subjetividade através do diálogo que é, ou deveria ser, uma atividade aí sempre presente, constante. Este é um espaço peculiar, pois, a posse da palavra e oportunidade de manifestar a contra-palavra qualificam este local como singular, pois os falantes aí presentes têm, no mínimo, cinquenta minutos para trocarem informações, interagindo e buscando sentido para e por estarem ali.



terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Cantinho da Poesia

A ARTE DE SER FELIZ
Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma regra: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem,
para as gotas de água que caíam de seus dedos magros
e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos,
sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas,
como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Às vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela,
uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem
diante da minha janela,
e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar,
para poder vê-las assim.
CECÍLIA MEIRELLES